AS ESCOLHAS DE JOANA

Cleverson se apaixonou tanto por Joana a ponto de tudo terminar num belo casamento na igreja evangélica onde eles eram obreiros assíduos e atuantes. Tiveram 3 filhos. Joana mostrava-se feliz em seu casamento, embora alguma coisa a fazia inquietar-se.


Numa caminhada matinal ela descobre pelas amigas que o seu grande amor da infância mora bem próximo dela. Distante poucas quadras. Logo percebe que esse sentimento não ficou no passado. Todos os sentimentos da infância, esse amor antigo, parecia superados. Mas, não. O passado mora bem ali e pode retornar com força. Joana resiste. Insiste em evitar qualquer romantismo bobo. Evita o encontro pessoal. Foi o mais intenso amor da sua vida. Faz o que pode para evitar esse ingênuo, tolo, sem noção... - classificações de tudo o que não queria reviver. Agora casada, procura não prejudicar o seu casamento. Diante dos filhos e da igreja há um compromisso.


Os meses lentamente se passam. Uma tragédia abalou Joana. Cleverson fora preso acusado de homicídio. Tudo aconteceu quando um cidadão decidiu cobrar uma dívida. Cleverson recebeu o cobrador com xingamentos. Na loja onde trabalhava, a discussão se prolongou durante horas. As portas da loja se fechando pelos funcionários, o cobrador não saia do balcão com uma barra de ferro na mão. Cleverson, num movimento rápido, cheio de ódio, pegou na gaveta um punhal. Enfiou na direção do pescoço do cobrador da dívida. Ele se esquivou a tempo. Cleverson erra o golpe, e acerta o filho do cobrador da dívida. O rapaz tentava apartar a briga. Pedia paz e diálogo. Com o golpe o jovem cai sobre seu próprio sangue. A luta continuou ignorando o jovem caído. Cleverson, desferindo golpes, conseguiu acertar olhos, barriga, peito e o pescoço do cobrador da dívida. Finalmente ele tombou lentamente. Cleverson não expressou nenhuma compaixão. O corpo caiu sem vida. Dois corpos sem vida.


Agora preso, sai a sentença. Cleverson é condenado a pena máxima - 55 anos de prisão. Sem mostrar arrependimento, evita receber visitas do pastor e até da sua esposa. Calado e sem expressão nos olhos, já não é o mesmo. Nem a fé evangélica dos tempos da igreja o faz se arrepender.


Joana, esposa de Cleverson, cumpre sua rotina. Após os cultos, leva suas perguntas e pede respostas:


- Pastor, tenho algumas perguntas a lhe fazer.

- De novo, Joana? Vamos lá... Diga.

- Por que eu não posso me divorciar?

- Joana, "o que Deus ajuntou, não separe o homem". Tá na Bíblia.

- Como saber se foi Deus ou não quem "ajuntou"? Outra pergunta: só o casamento hoje deve seguir uma lei do velho testamento? E as outras leis?


Joana não tem a menor esperança que seu marido volte ao normal como pai e marido. Na prisão adquiriu vícios em drogas e se tornou uma mente perigosa na prisão. Aliou-se aos piores e lidera grupos dentro e fora da cadeia.


Resta a Joana compensar sua dores com aquele amor da adolescência. Aquele antigo amor, casado, a convida para viajarem juntos, um passeio turístico. O hotel é reservado por ela. Apartamento com vista para o mar. A intenção era o melhor que poderia prometer. Apenas ótimos momentos.


Joana se lembra a todo instante das palavras do pastor: cuidado com aquele rapaz. Ele já está no quarto casamento. Joana ignora os avisos com os ombros. Dois dias antes de embarcar para a cidade turística com seu amor, ela recebe dele um cartão dourado escrito manualmente:


"Você quer se casar comigo? Eu te amo."


Esse cartão não faz Joana feliz. Joana relê o recado para repensar. Ela planejou com esse amor antigo, que surgiu do nada, que seja apenas um parceiro sexual. Joana quer apenas um rápido passeio romântico, bom sexo, mas não pretende acabar com o casamento de alguém. Não!... Planejou para depois dessa viagem, que cada um volte à sua rotina. Cada um volte no quadrado dos seu problemas. Mas o que ele quer... Um quinto casamento? Não sabe o que fazer com o cartão. Amassa e joga numa lata de lixo. Não interessa a proposta nele escrito. Seu espanto e indecisão duram alguns segundos.


- Já sei o que fazer. A igreja não vai me prender pra sempre nesse angustiante "jugo desigual"... (Quanta contradição, meu Deus!) Nem esse fantasminha dos tempos da adolescência vai me usar como mais uma em seu laboratório. As buscas do amor perfeito terminam aqui. Pra mim, chega! Chega de sofrer na mão de homens que não honram as calças que vestem.


No mesmo dia, Joana entra com passos firmes na sala de serviços públicos.


- Eu quero me divorciar. Quem é a pessoa que encaminha isso?

- Sim... Aqui mesmo. Você deve preencher esses papéis. O seu marido... Onde está...?

- Preso.


Depois de muitas idas e vindas, finalmente ela consegue o divórcio. Não foi fácil esse processo. Afinal, ela tem um filho ainda menor idade, e muitas dívidas que o marido colocou em seu nome. Isso dificultou a conclusão.


A viagem com a antiga paixão não aconteceu. Ela cancelou pela rede social. Poucas semanas depois, sozinha e a bordo de um luxuoso navio, ela vê o sol nascer no horizonte do mar. Junto com a brisa da manhã, ela ouve uma voz ao seu lado:


- Posso perguntar o seu nome?


Ela se volta para quem pergunta, e não responde imediatamente. Apenas acena com um sorriso de quem não está disponível para aventuras que começam bem e terminam rápido e, as vezes, muito mal. Mas responde pra ver quais as intenções da pessoa que a aborda:


- Joana.

- Muito prazer! O meu é Cassandra.

- Muito prazer...

- Joana, aquele que vem lá com cara de quem não dormiu a noite é o meu marido. (risos) Acompanha a gente no café da manhã?

- Sim... E por que não? Mas... Por que esse convite? Vocês não me conhecem. Alguma razão especial? Querem vender alguma coisa?


Após algumas brincadeiras bem humoradas e inofensivas do marido da Cassandra, ele mesmo diz o motivo dessa aproximação.


- Joana, somos de um movimento livre de cristãos conscientes e coerentes. Não fique com nenhum receio. Gostamos de fazer amizades e trocar ideias sobre Jesus e sua natureza humana.

- Perai... Perai... Deixa eu colocar mais açúcar nesse café... Vocês querem me converter para alguma igreja?

- Não.

- E o que querem comigo?

- Amizade.

- Olha... Estou saindo de uma fase complicada na minha vida. Agora aparecem vocês... Propondo amizade? Ou se trata de uma estratégia religiosa? - o silêncio é curto - Mas eu topo! Taí... Eu topo conversar obre isso. Mas...

- Mas...? - pergunta Cassandra.

- Essa amizade tem o seu limite nas conversas sobre a pessoa de Jesus. Consciência e coerência. Combinado assim?

- Você aprende rápido, pelo jeito - observa Cassandra -, perfeito!

Todos riem.



73 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

O CHAPÉU

Outro dia a minha mãe caiu na besteira de perguntar: o que você tem na cabeça? O cinismo agiu rápido: chapéu! - respondi. A feição de mãe geralmente é vista como a de Maria, aquela do Salvador. Nesse

DE PONTA A PONTA

A fé - natural ou espiritual - entra na simetria que não se anula. Assim, se prolonga em desenvolvimento e se completa plenamente em propósitos. A fé natural é pragmática e limitada, por isso não comp

O COMEÇO DA CURA

Um dia Jesus estava aparentemente sem paciência. Definitivamente, o Senhor não perde tempo justamente na hora da dor. Diante de uma necessidade, Jesus viu algo que impedia a cura. Impacientou-se. Afin

  • Facebook
  • Instagram

BRADESCO  1994

C/C 365459

CEF 2437 - 013

Poupança 00624049 - 0

Ministério Pastoral

Judson Santos

+ de 30 anos de

serviços prestados