A MISERICÓRDIA NAS ENTRELINHAS

A Bíblia não é para leitura. A Bíblia se abre para quem deseja ser surpreendido com alguma revelação. Ler e refletir o que ela diz. Num texto comum, parece que a Bíblia gostaria de dizer algo mais. Se contenta em dizer nas entrelinhas. Como se fosse um ser vivo (já que a "palavra" é viva) ela diz com lampejos um pouco aqui, um pouco ali. Nas entrelinhas, pequenos códigos. Ela mostra dicas sutis o que qualquer ser humano desconfia de algo que poderia ser dito e não está explícito, por alguma estranha razão.


Com a Bíblia aberta, sento numa cadeira razoavelmente confortável para ler o salmo cento e seis. Nesse texto bem conhecido, vem a minha irresistível desconfiança.


Desconfiar não é o não confiar. Na minha leitura, confio que vou ter mais um desafio nas minhas crenças acomodadas, crenças instaladas na mesmice mais confortável que eu.


Eu leio, desconfio e me permito considerar como prováveis, possíveis, algumas hipóteses. E termino a reflexão num "pode ser que assim aconteceu". Pode ser...


Pois bem... Começo a minha reflexão no salmo cento e seis perguntando: por que a misericórdia do Senhor dura para sempre? Desconfio desse "para sempre" e insisto: Por que a misericórdia do Senhor dura para sempre?


A terra não tem uma existência dentro do tempo "para sempre". A vida humana não tem uma existência na extensão do tempo "para sempre". Os anjos também não existem na totalidade do "para sempre". Todos tiveram um começo bem recente. Se considerarmos a linha-tempo no que significa a amplidão do "para sempre". Aqui se descortina as inevitáveis entrelinhas.


O tempo "para sempre" é tão similar ao que é eterno. Se não tanto, é extensamente lógico, entender o "para sempre" desse salmo, maior que o tempo humano, maior que o tempo da existência dos anjos.


Nesse ponto, penso: Deus tem a sua misericórdia durando para sempre... Por quê?


Agora vem os prováveis talvez e possivelmente com uma certa dose de coerência factual:


Eu desconfio que os anjos caídos receberam chances para o arrependimento, antes da expulsão dos céus. Não há registros. Mas é provável.


Eu desconfio que outros seres - talvez humanos, talvez quase humanos, talvez outros seres com outros biotipos, talvez seres bem diferentes dos humanos - talvez tenham também cometido suas falhas. Outras falhas. Outros erros. Outras histórias de erros. Outros pecados com outros desfechos. Por que não?


Eu desconfio que o erro não é um comportamento restrito na história dos anjos e dos homens. O erro é um desvio do ser perfeito vindo a não-ser no perfeito, cuja extensão tempo "para sempre" está contido dentro da misericórdia de Deus. Nisso se justifica a existência da misericórdia do Senhor durar tanto! Sem curvas históricas, sem interrupções históricas, a misericórdia do Senhor dura, por alguma razão factual, dura, assim, para sempre. Motivo? No descortinar das entrelinhas da misericórdia do Senhor durar para sempre vamos saber tudo.


Só a ignorância não é para sempre.


JUDSON SANTOS



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