A SEGUNDA CACHAÇA

Foguinho, pede mais uma que eu pago; não saia de fininho. Não aceite outra loira quente. Só pago se vier bem gelada. Deixa essa cara de tristeza. Se você me disser que sua tristeza é por causa da Tereza, vou fazer de conta que não ouvi. Tantas vezes falei, outras tantas alertei que, a permanência dela dura enquanto o sol não aparece. Aquece essa mágoa nessa gelada. Não, não está tão gelada como eu pedi. Esse butiquim está cada dia pior. Não merece nossas lágrimas, meu amigo. Eu queria chorar com você. As loucas merecem a indiferença. Com licença, vou acender um cigarro. Você se lembra da Renata? Acho que você se lembra, sim. Aquilo que era mulher!... Nunca me esqueço daquela segunda-feira com cara de sábado. O bar lotado, garçons agitados. Muitas vezes tive que gritar pra você me ouvir. Aquele som alto, as conversas dos quase bêbados, impediam eu ouvir o seu súbto pedido de socorro. Foi tudo muito rápido. Você me chamou com dificuldade. Caiu no chão, perto dos pés da Renata. Eu juro que fiz de tudo pra te salvar. Eu juro! O seu velho coração parou. O que ficou comigo até hoje foi aquela imagem do seu rosto. Olhos arregalados; desesperados. Foguinho... Aquele infeliz momento completa hoje três anos. A Tereza? Foi morar com um traficante. Seus filhos? Um virou crente. O outro foi mais longe. Virou pastor. E você está no céu. Deve estar aí. Seus filhos convenceram você a virar pentecostal. Até deram esse apelido de Foguinho por causa da sua reza esquisita, língua enrolada. Eu ria e você nem ligava. Que pena que você se foi, meu bom amigo, justamente quando pediamos a segunda cachaça. (Depois de um curto silêncio)Tem cachaça aí no céu, Foguinho?... Que pergunta besta. Vou embora dessa espelunca vazia. Garçom, a conta! - Hoje vai ficar somente na primeira garrafa? - Já chega por hoje. A segunda pode ser fatal.

Autor: JUDSON SANTOS AELDF 24/05


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