O CHAPÉU

Outro dia a minha mãe caiu na besteira de perguntar: o que você tem na cabeça? O cinismo agiu rápido: chapéu! - respondi. A feição de mãe geralmente é vista como a de Maria, aquela do Salvador. Nesse momento a ternura materna cedeu lugar ao olhar sedento de palmadas; apanhei na alma!


Não muitos dias se passaram, lá vem a frase pouco modificada, indignada, e novamente nada de ternura: meu filho, você perdeu a cabeça? A loja está falindo...? É claro que quase dei aquela gargalhada. Já estava pronta a piada de um adulto, cabeça de adolescente, agora se esquiva do olhar castigador da nervosa mãe. Nervosa? Com razão! Os mal feitos dos negócios na loja da família que eu gerenciava já não eram para acontecer. Eu tinha experiência nos negócios. Sem se importar com a bronca, cinicamente respondi: se eu perder a cabeça como vou usar chapéu? Nisto olhei para a porta a fim de fazer do chapéu, cúmplice das minhas evasivas. Me apavorei. "Cadê...? Cadê o ...? Onde está o meu chapéu?"

A porta entreaberta permitiu que o vento forte entrasse assobiante, balança cortinas e sequestra meu chapéu novinho. As folhagens secas do outono se espalham pelos cantos da sala. O chapéu é parte de mim. Como sempre, passa o dia na loja, e sempre espera educado num apoio próximo a porta.


Mas aquele vento, um forte e surpreendente vento, deu outro destino para quem emprestava seu estilo para a vaidade. Com a invasão, o vento o solta do apoio, faz rolar pelo chão, se atrapalha entre mercadorias expostas, e alcança a calçada ainda pouco movimentada. O chapéu se desespera em seus pensamentos.


Uma criança passa correndo com uma bola embaixo do braço, se abaixa para me pegar; em vão. Prefere garantir, e segurar a bola. Como bom aprendiz das orelhas, ouço o menino resmungar: é melhor a bola para brincar que um chapéu bobo de adulto.

O vento, forte o suficiente, dá mais velocidade ao meu descontrole. Aproveita-se impiedosamente do formato arredondado dos meus detalhes. A aba e modelo "côco" arredondado dizem que tenho uma classe social superior. A cor quase preta, acabamento bem acinzentado, faz de mim o mais lindo chapéu que meu dono comprou na loja do "seu" Ernesto. O vento me leva mais longe, sem controle.


Antes que eu peça licença passo entre as pernas da moça de cabelos ruivos. Ela, na mesma elegância que andava, recua seus passos a fim de olhar melhor as vitrines de outras lojas. Me ignora. Não é pra menos. Sou um chapéu já sujo de poeira e de uso masculino. Bem que eu gostaria que essa outra moça apressada me pegasse do chão. Ela passa rápido por mim em seu vestido com bolinhas azuis, tecido quase transparente. Nem percebe meu abandono. Eu, indiscreto chapéu, apenas a admira. Sem freio, sigo forçadamente o vento. Rolando, quase por entre as pernas, dessa vez, de um casal apressado. Sigo solto. Sigo forçado a ser mais cuidadoso. Não quero ser pisoteado. Sigo, assim, e nada pára a pressão desse vento que me faz rolar rua abaixo.


Ôpa! Parece que já chove lá pelas bandas da capital. Aqui nesse fim de mundo ainda não chove - lamenta já distante do seu dono. O vento anuncia que vem chuva por aí. Sopra cada vez mais forte levando folhas. Continuo a rolar desengonçado como o voo das borboletas.

"Olha a pipoca! Olha a pipoca! Pipoquinha quentinha!" - grita o pipoqueiro todo suado. Com esforço ele empurra o carrinho de pipoca para perto de crianças. Num movimento rápido levanta as pernas do meu zigue zague como se eu fosse uma cobra. Com um dos pés se equilibra. O outro pé espera eu me afastar para voltar a se apoiar. Com o respeito à minha correria, logo percebe a minha aflição, descontrolado sigo como quem não tem a menor vocação de perambular sozinho pelas calçadas. Nem de correr e rolar na poeira da rua. O pipoqueiro prosseguiu: Olha a pipoca! Olha a pipoca! - indiferente ao perdido no destino. Sigo so caminho e deixo de atrapalhar o fazedor da alegria da criançada.

Na curva da rua surge um som estridente de flautas, tambores, trombones que tiram a atenção do pipoqueiro. A criançada vai ao delírio. Os pratos irritam velhinhos sentados em frente a porta de suas casas. O desfile não termina com malabaristas, engolidores de fogo e algumas pessoas engraçadas pintadas no rosto e roupas que tiram a atenção dos instrumentos. O exótico desfile corta a paz das ruas da cidade com poucos habitantes. Bem logo atrás vêm dezenas de crianças. Alvoroçadas gritam! Gritam qualquer coisa. Gritam na alegria, risos se espalham de boca em boca. O tédio se quebra se junta à timidez dos rapazes da cidade. Aquela gente engraçada é bem diferente - comenta alguns. Deve ser lá da capital - interfere outro. Os adultos nos bares, jovens na calçada, sorriam uns para os outros. Aquela barulhenta bandinha que promete alegria na cidade. É o circo que chegou! Anuncia a todos o melhor embaixo da grande lona na praça. Sorridentes, as meninas artistas eram aplaudidas com emoção pelos rapazes que a tudo assistem. Eles buscam atrair os olhares delas imitando o jeito de falar dos rapazes da capital. Como um chapéu curioso, chego perto de quem grita a plenos pulmões:


"Reeeespeitáááável públicoooo!!!" - esse homem tem um chapéu mais alto que eu. Vestido a rigor, terno surrado, desbotado, gravatinha borboleta. Aquele chapéu, ele tira para cumprimentar o público; que vaidoso! Nada se compara comigo - o errante e mais bonito dos chapéus. O carismático senhor chama a atenção para as atrações do circo da praça. A sua voz é potente.


"Chega nessa cidade o maior, o melhor e o mais espetacular circo de todos os tempos!!!" Ele não pára de anunciar: "Venham, crianças! Chamem o papai, a vovó e a mamãe! O circo da alegria chegou!"


Xiiii! Por falar em mamãe, meu dono vai levar mais broncas. Preciso voltar logo para a loja. Vou rolar mais rápido de volta a loja. Se o vento ajudar, acho que alcanço a loja.

Antes do meu esforço de retorn'o, lá vem a careca do meu dono. Acho que corre em minha direção como nunca correu em toda a sua vida. Grita, abre os braços, cerca meio desajeitado, imita passos de Michel Jackson, abre os braços como quem cerca galinhas em galinheiro. Cena hilária! Com jeito bobo de quem faz macaquices, mais uma vez me cerca alheio ao desfile dos artistas do circo. Grita: "Segurem esse chapéu!" Passa pelo meio do trombone, ignora os sorrisos das meninas do picadeiro, até o palhaço faz cara feia. "Sem meu chapéu não fico! Ficar sem ele é como ficar nu." - justifica para a moça de maiô e barba na cara que pára de acenar para todos.


Meu dono se joga no chão no último ato de desespero. A banda pára de tocar, as meninas param de sorrir, o apresentador pára de gritar. O pequeno público na alçada vai ao delírio. Todos aplaudem o meu dono que vira a maior atração que a do circco. Ôpa! Acho que vai conseguir! Pegou!


Delicadamente tira o pó sem me amassar. Já cansado, estou bem sofrido pelo vento. Castigado pela poeira, cansado de tanta zoeira. Finalmente sou novamente o chapéu seguro pelas mãos do meu dono. Protege em seu corpo, lentamente olho para ele com aquele olhar de quase lágrimas. Fico com pena dele. Fez muito esforço. A trupe o circo segue me silêncio para se recompor na outra rua. Meu dono limpa carinhosamente a poeira. O abraço dele é como quem abraça um filho. Até o beijo dele é como quem beija um amor que voltou para os braços do amante. Ah! Não!... Chega de beijo! Justamente na frente da moça ruiva de vestido de bolinhas? Ora bolas... Converso silenciosamente com ele com o meu sorriso de agradecimento. "Você, meu amigo, nunca vai se separar de mim." - diz ele. Diga isso para o vento ou então, fecha melhor as portas da loja. Pronto. Falei na raiva.


"Sempre que os ventos do outono soprarem, as minhas mãos segurarão a sua fragilidade para junto de mim. Soprarei para bem longe a minha desatenção. Prometo!" - ele se declara na minha cara, um poeta amador e mal cuidador da loja e das portas da loja. Ô poeta! Ainda tem poeira em mim! A minha raiva só terminou quando me acomodei na careca desse desajeitado dono.

75 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo

DE PONTA A PONTA

A fé - natural ou espiritual - entra na simetria que não se anula. Assim, se prolonga em desenvolvimento e se completa plenamente em propósitos. A fé natural é pragmática e limitada, por isso não comp

O COMEÇO DA CURA

Um dia Jesus estava aparentemente sem paciência. Definitivamente, o Senhor não perde tempo justamente na hora da dor. Diante de uma necessidade, Jesus viu algo que impedia a cura. Impacientou-se. Afin

PROVÉRBIOS II

Os dias se vão como um vento; com o vento. Uivam feito lobos. A temperatura cai no inverno; o sol se levanta desafiando o frio. Ventos sopram. Os intermináveis ir e vir dos dias esquecem no passado os

  • Facebook
  • Instagram

BRADESCO  1994

C/C 365459

CEF 2437 - 013

Poupança 00624049 - 0

Ministério Pastoral

Judson Santos

+ de 30 anos de

serviços prestados