O INIMIGO DO MEU INIMIGO

A madrugada não apenas esconde mistérios como esconde no seu silêncio o inesperado. A madrugada fez uma promessa maldita: esconder o destino dos inocentes. Guarda a sete chaves todas as más intenções. Deixa exalar o mau cheiro da traição, do mal inesperado. Escondidos estão os que espreitam os passos de quem não quer inimigos. Apenas seguir a paz com todos. Escondem os perigos. Escondem os inimigos do inocente que leva seus lentos passos entre as frias gotículas da quase chuva. Escondem, sim, intenções de quem tem olhos a serviço da morte. Os olhos ocultos se fazem sentinelas. Agora cercam meus passos. Sem levantar o ânimo, caminho sem saber o que me espera lá na frente.

O meu respirar não contradiz a noção do perigo; coração pulsa rápido, nada em mim desiste do medo. Enfrento, seja o que for, só pra não negar e não desacreditar. Fecho os olhos para o desespero. Cada vez mais próximo é o fim. A rua sem saída imita meu pesadelo. Lá estão os chacais. Os que rangem dentes; arrogantes. Não mudam o jeito de impressionar. O som entre os dentes soa estridente. Rosnam com sede de sangue. A sede não é menor que a vontade de atacar qualquer expressão de fraqueza.

Não estou interessado em quem me odeia. O que interessa é o ódio dos meus inimigos se dissolver na indiferença da minha reação. Mantenho a serenidade. Tento manter... Impossível! As entranhas do silêncio aparentam paz. Sem acreditar na paz, procuro esquinas. Procuro a melhor saída. Na desconfiança, não escondo a vontade de correr.

A minha atenção se volta para um reflexo de metal. Com certeza, bem cortante. Alguém ali esconde a morte na escuridão. Meus pés não param de tremer, como também minhas pernas não sustentam todo o meu pavor. O inimigo se aproxima com passos conscientes em fazer o mal. As minhas forças se transformaram em fraquezas na hora errada. As sombras dos muros e árvores atraem as piores possibilidades.

Lentamente o reflexo do metal desafia a minha sorte. Anuncia morte entre o frio da noite e a chuva fina. A rua está dominada. O possuidor do metal que brilha, o faz ainda mais brilhar propositalmente.

Estou diante de quem me odeia sem causa. Inimigo sem motivo. A tensão se intensifica na angústia das perguntas sem respostas. O suor se mistura com a chuva no rosto paralisado. Deixo escorrer a garoa. Rosto molhado, céu distante, indiferente a tudo. O silêncio é o som da morte. O anúncio do meu destino ainda está no reflexo da lâmina. Certamente tão afiada que o nem o vento ousa passar por perto. Inexplicavelmente insisto na razão de tudo e não a encontro. Embora o medo não me faz recuar.

Ouço outro som de passos que surgem do nada. Passos pesados. Alguém aparentemente mais alto e mais forte, caminha devagar. Não identifico outros detalhes. Quero gritar "quem vem lá?". Ou "socorro!". Se o outro que surge das sombras é de paz ou inimigo, não sei. A escuridão da noite encobre o bem e o mal. O que vejo, não posso julgar, nem prever consequências. Nada sei o que traz esse outro invasor do meu caminho. Mas ele não vem em minha direção. Me ignora. Em sua mão outro reflexo metálico. Reflexo de outro metal ainda maior. Talvez mais afiado.

O silêncio durou muito pouco entre eles. Antes do avanço brutal dos dois gigantes, rápidos movimentos, inevitável é a luta nas sombras. Socos, golpes de punhais. Mais socos. Truculentos corpos que se chocam, se agridem violentamente. Gemidos, gritos ameaçadores mostram que a luta tem a bandeira pintada com sangue. Ambos caem, rolam, a luta prossegue. Mais um movimento, só deu para ouvir o gemido. O golpe fatal; é o final. Somente um aos poucos se levanta.

O golpe certeiro da lâmina foi o motivo dos últimos gemidos. O meu inimigo agora está morto. No último suspiro, o silêncio da noite não é mais tão pesado quanto antes. Imóvel no chão, o primeiro invasor do meu destino morreu. Sangue desce pela rua, nas pedras lisas com a chuva. O corpo inerte é observado pelo vencedor num duelo que não era por mim previsto, nem desejado. Nesse tempo curto de observação é suficiente para se convencer da morte.

Não tenho interesse em saber a identidade dos estranhos. Sigo o meu caminho mais atento. A minha saída daquele cenário, tão humilde no caminhar, é o aceno de agradecimentos ao vencedor.

Estou certo de que, o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Isso basta para eu seguir em paz.

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